Tristeza, raiva, euforia, fome, claustrofobia, posso ir citando emoções sensações para pontuar um gráfico que traçaria um círculo de insatisfação. Estou esperando aquele encontro com um grande amigo perdido... e isso me paralisa. Onde isso me deixa? A culpa. Culpa como uma traça corroendo um jeans caro. A traça é uma diva, não pergunta o preço, nunca pergunta o preço, como eu. Corróe. Qualquer luxo nosso é comidinha de um ser, queria escrever ser com letra maiúscula, mas ser... desprezo. Desprezo o que fizeram comigo e desprezo é ódio sem coragem de matar, assassinar, destrinchar, arrancar pedaços de carne, como de uma ridícula galinha morta. Galinha preta, meu tio Francisco, morto do coração, me ensinou a fazer galinha preta, assim: pega-se uma folha de jornal (página dupla, eu descobri décadas depois), junta-se as pontas torcendo-as e dá-se um nó, formando um bólido, algo meio inflado, incendeia-se a ponta e o ar quente infla ainda mais o bólido que sobe a uns bons cinco, dez metros de altura e, por fim, pega fogo, chovendo fagulhas na cabeça da gente... quem souber por que galinha preta que se congratule comigo. Meu tio Francisco, que, aos meus cinco anos, com uma faca grande apertada contra seu peito perguntou a mim e a minha irmã se dele gostávamos, impondo a condição de que se, disséssemos não, afundaria a faca no peito. Meu tio Francisco, do coração morto.
Escrito por BANNED GENES às 01h05
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Música, Informática e Internet
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